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domingo, 12 de junho de 2011

"UM TOSTÃO PARA SANTO ANTÓNIO"

Os santos populares estão aí. E porque, em Lisboa, é costume os miúdos pedirem "um tostãozinho para o Santo António", que se festeja amanhã, fiquemo-nos com este bonito conto de António Torrado.

"Andava um garoto a pedir um tostãozinho para o Santo António. Uns davam, outros não.
Até que passou por ele um senhor de sobretudo comprido, até aos pés, e de sandálias, vejam bem. E se estava frio!
O garoto, cá de baixo, reparou no desconcerto, não deu importância. E vá de pedir:
— Dê-me um tostãozinho para o Santo António...
O senhor do sobretudo castanho todo esfarrapado debruçou-se para o miúdo e, sorrindo, disse-lhe assim:
— Tanto andas tu a pedir como eu. Hoje ainda não me deram nada.
— A mim já — respondeu o garoto. — Quer ver?
E mostrou-lhe, na palma da mão, umas tantas moedas. O mendigo contou-as.
— Davam e sobravam para pagar uma sopa e um pão, ali, na taberna da esquina — observou o mendigo.
— Mas eu não tenho fome — preveniu o garoto. — A minha mãe deu-me de almoçar, ainda agora.
O senhor mendigo suspirou e disse:
— Pois a minha mãe já morreu. Deve ser por isso que ainda não comi nada, hoje...
O mocinho olhou para o homem, a certificar-se se seria verdade o que ele dizia. Os olhos tristes do mendigo garantiram-lhe que sim.
Foi a vez de o garoto suspirar:
— Este dinheiro era para eu comprar berlindes...
O homem de sandálias admirou-se:
— Mas tu, há bocadinho, não pedias para o Santo António?
O garoto riu-se:
— É um costume. Quero eu lá saber do Santo António! É tudo para os berlindes.
O mendigo não estranhou a revelação. Percebia-se, a conversa ia ficar por ali. Despediu-se:
— Ainda tenho hoje muito que andar. Adeus e boa colheita.
O rapazinho viu-o descer a ruela, num passo cansado. Então, num impulso, correu atrás dele e puxou pela ponta da corda, que o homem trazia à roda da cintura:
— Tome lá para um pão e para uma sopa. Mas não vá ali àquela casa da esquina, que são uns mal-encarados. Na outra rua abaixo, há mais onde comer.
O homem de sandálias e sobretudo roto, que lhe davam um ar de frade de antigamente, agradeceu as moedas e o conselho e seguiu caminho.
O garoto voltou ao seu poiso. E quando, pouco depois, porque estava frio, meteu as mãos nos bolsos, encontrou-os atulhados de berlindes..."
in, O mercador de coisa nenhumaPorto, Livraria Civilização Editora, 1999

sábado, 26 de março de 2011

"BORBOLETAS" - TAPETE DE HISTÓRIAS

Durante a Semana da Leitura, o conto Bolboretas (Borboletas), de Xabier P. Docampo e Xosé Cobas, Everest Galicia, voltou a ser protagonista, numa hora do conto para alunos de 6ºano. A sessão começou com uma actução da classe de conjunto (coro) do 5º D que cantou uma belíssima canção sobre a amizade como introdução à encantadora história de amor entre um rapaz e uma rapariga de 12 anos que aprendem a partilhar o mesmo jogo: sentir uma borboleta na boca e gozar todas as sensações que o seu voo lhes transmite.




quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

PASSAGEM DE TESTEMUNHO COM TAPETE DE ESTÓRIAS

A estafeta de contos, actividade proposta às BEs do concelho de Santa Maria da Feira pela BM continua. Hoje, a nossa BE levou o conto Borboletas, de Xabier P. Docampo, à escola EB 2,3 da Corga. A técnica do tapete de estórias deu imenso resultado e o conto terminou com a canção de Pedro Abrunhosa, "Eu não sei quem te perdeu" cantada pelos nossos "rouxinóis" do 7ºC, Joana Almeirante, Joana Almeida, Vera Rocha e Diana Almeida.

De salientar que as autoras do tapete são as professoras de EVT, Alexandra Santos e Lurdes Aido que o elaboraram no Clube de Artes.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O PRINCIPEZINHO - ANÁLISE DA OBRA

O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, é a obra seleccionada pelas BEs do concelho de Santa Maria da Feira para participação na 1ª fase do Concurso Nacional de Leitura 2011. Este documento é uma ajuda à leitura da obra.


A compreensão do conto também poderá ser testada aqui ou aqui.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

HORA DO CONTO NA BE



Hoje, a BE esteve animada.
Porque é quase Natal, porque é bom ler e ouvir ler, porque é maravilhoso ter tempo para parar e pensar no ritmo desenfreado em que andamos todos, a turma 8ºCEF de Cuidados de Beleza (de manhã) e a turma EFA (de tarde) estiveram na BE, acompanhadas pelas respectivas professoras de Língua Portuguesa, para ouvirem o conto "A batalha de Natal", que foi distribuído aos alunos para poderem lê-lo em casa, em família.
Uma das alunas da turma EFA leu um poema em francês, "Père Noël enrhumé", a professora Sílvia tocou, cantou e, mais uma vez, encantou e o conto foi, também, um pretexto para uma conversa sobre o tempo dedicado à família.



domingo, 12 de dezembro de 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

LEITURA "ENLATADA"


Vários contos de Natal foram "enlatados" e colocados nas mesas da BE, para uma leitura mais apelativa e lá vão permanecer durante o mês de Dezembro.

BOAS LEITURAS!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

CONCURSO "UMA AVENTURA LITERÁRIA 2010




No dia 20 de Abril, a Professora de Língua Portuguesa, Sílvia Correia, chegou à sala de aula com um grande sorriso e com um envelope na mão. Disse-nos que tinha uma óptima notícia para nos dar. Abriu o envelope devagarinho e anunciou que as nossas colegas Catarina Paiva, Érica Monteiro e Raquel Silva tinham ficado classificadas em 3.º lugar, a nível nacional, no Concurso “Uma Aventura…Literária 2010”, promovido pela editora Caminho, na modalidade de texto original, com o título “Juntos no navio assombrado”. Ficámos orgulhosos por saber que, dos 10366 trabalhos enviados para o concurso, o das nossas colegas tinha ficado tão bem classificado. Demos os parabéns às nossas colegas e agradecemos à nossa professora por nos ter incentivado a participar no concurso e, sobretudo, por nos motivar sempre para a leitura e para a escrita.
Agora, a Professora Sílvia anda atarefada a organizar a nossa ida a Lisboa, no dia 10 de Maio, a fim de estarmos presentes na cerimónia de entrega de prémios, que terá lugar junto aos pavilhões da Editorial Caminho, na Feira do Livro. Ficámos contentes por saber que as escritoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada vão estar lá para nos receberem.
Bem, resta-nos dizer que o 6.º C está de parabéns!
Alunos do Projecto Comunicaçã0, 6ºC

domingo, 21 de março de 2010

REMORSO

Para dizermos à Primavera: "- Vem e instala-te com todo o teu esplendor" e alertar para o problema da perda de biodiversidade devido a atentados contra a Natureza, aconselhamos a leitura deste pequenino mas belíssimo conto, de António Botto, que encerra uma enorme mensagem.Se gostaram deste, podem dirigir-se à BE onde vão encontrar a malinha dos contos subordinados ao tema da Natureza.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

LENDA DE AMOR

As histórias de amor são tão bonitas!!!
Para aguçar o apetite, deixamos aqui o início de uma lenda de amor, intitulada "Lenda das rosas de Rosais", que explica o nome de uma pequane vila da ilha de S. Jorge, nos Açores. Se gostaste deste início e queres saber como terminou este amor tão grande, corre à estante da BE onde se encontra o livro Lendas de Portugal: lendas de amor, de Gentil Marques, Âncora Editora (CDU: 821.134.3-34).



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

LENDA DE S. VALENTIM

Acreditando que os solteiros eram melhores combatentes, o imperador Cláudio II, proibiu o casamento durante as guerras. O bispo Valentim lutou contra as suas ordens e continuou a celebrar casamentos. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte.
Enquanto esteve na prisão, teria recebido muitas mensagens de encorajamento e flores das pessoas que acreditavam no amor.
Durante a prisão, Júlia, filha do seu carcereiro e cega de nascença, visitava-o com alguma frequência, levava-lhe comida e conversava com ele. Diz a história que Valentim, sensibilizado com o problema de Júlia, implorou diariamente a Deus para que a fizesse recuperar a visão. Certo dia, durante uma das suas visitas, uma luz iluminou a cela e Júlia começou a chorar e… a ver. Perante este milagre, toda a sua família se converteu ao Cristianismo. Cláudio II acabou por condená-lo à morte que se deu a 14 de Fevereiro de 269 d.C..
S. Valentim passou a ser considerado o mártir protector dos namorados.

domingo, 24 de janeiro de 2010

INTERNET SEGURA - CRIAÇÃO DE CONTO

Para assinalar o Dia da Internet Segura, a DREN, através do Gabinete de Gestão do PTE, lança um desafio aos jovens: escrever uma pequena história.
Os participantes são desafiados a dar continuidade e desenvolver uma narrativa – a ilustração é facultativa - a partir de um dos seguintes casos concretos, em que está implícita uma situação eventualmente insegura:

História 1: Agente duplo
Olá! O meu nome é Real Virtual. A minha família e os meus amigos conhecem-me por Real, já para a malta dos chats e dos jogos, na Internet, sou simplesmente o Virtual. Como Real, sou pequeno(a), moreno(a), tímido(a), mas como Virtual faço de conta…


História 2: Sorte grande!
A grande notícia acabou de chegar no meu correio electrónico. Fui eu o escolhido, entre um milhão de outros meninos, para ganhar a consola de jogos com que sempre sonhei! E é tão simples, basta clicar onde diz “Aceito o prémio”.


História 3: Tentações
A nossa professora marcou-nos um trabalho sobre um dos assuntos abordados nas últimas aulas. Pesquisei bastante e já escolhi o meu tema. Descobri, na Internet, um texto fabuloso sobre o assunto.


História 4 - O melhor preço
Todos sabiam o que eu queria para o meu aniversário. Dinheiro para comprar uns jogos. Na Internet são mais baratos, por isso fui ao site com o “melhor preço”. Só tinha que dar os meus dados para fazer o registo.


História 5: Que chato!
O João recebeu de presente “aquele” telemóvel. Há muito que o desejava! Entusiasmado, lançou-se ao trabalho. Num instante, os números dos amigos “voaram” para dentro da memória. No dia seguinte, recebeu a mensagem “liga-me”. Não conhecia o número, não ligou. A mensagem repetiu-se, e repetiu-se, e repetiu-se…


Os trabalhos devem ser enviados por e-mail até ao dia 7 de Fevereiro de 2010.

Para o desenvolvimento do trabalho sugere-se a consulta dos seguintes sites:
http://www.internetsegura.pt
http://www.seguranet.pt
http://www.miudossegurosna.net
http://dadus.cnpd.pt

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

LADINO


"Ladino" é o título de um dos contos do livro Bichos, de Miguel Torga e o nome da personagem principal deste conto.


Cada uma das histórias tem como personagem principal um animal, em luta com os elementos da natureza, Deus ou o Homem. As personagens são bichos, mas sentem e agem como se fossem humanos.

Ladino é um conto de análise psicológica. Através da personificação, o autor pretende criticar os que têm as mesmas características desta personagem, cujo nome resume toda a sua maneira de ser: Ladino significa astuto, manhoso, sabido. Apesar de ter sido escrito há muito anos, o conto mantém toda a actualidade pois oportunistas, como o Ladino, é o que não falta na sociedade actual.
RESUMO:
Ladino é um pardal finório que vive alegremente, sem preocupações. Em pequeno, manteve-se no ninho, onde ficava todo o dia a dormitar, até ser “matulão, homem feito” e era a mãe que o alimentava pelo que não precisava de ir à luta; em adulto vive com muitas cautelas para que nada de mal lhe aconteça. Egoísta, só pensa em si e no seu bem-estar; vê os outros a passar fome mas ele não se incomoda com isso e sabe como se alimentar, mesmo em tempo de crise. Hipócrita, dá lições de moral aos outros mas não as aplica a si mesmo. Cínico, faz-se desentendido quando a conversa ñão lhe agrada.
VOCABULÁRIO:
Em toda a sua obra, Miguel Torga mantém uma forte ligação à terra em que nasceu, Trás-os-Montes e isso revela-se, tambem no vocabulário que utiliza.
Para ajudar a compreender melhor o conto, aqui ficam os sinónimos de algumas palavras mais difíceis por pertencerem a um nível popular:

  • dar o lampo – morrer
  • folestrias – habilidades, brincadeiras
  • pisco – a abrir e a fechar
  • repelão – impulso violento
  • lambões – lambuzões
  • matulagem - vadiagem
  • meda – montão de molhos de cereais
  • esbagoava – tirava os bagos
  • arrombadinho – estragado
  • pejo - vergonha
  • painço – capim, erva para forragem
  • arrozada – cozinhado à base de arroz
  • fito – jogo popular
  • grainha – semente de frutos
NOTA:
Neste site, pode-se ler um belíssimo texto de Miguel Torga onde ele descreve poeticamente a região onde nasceu, Trás-os-Montes.

FREI GENEBRO

"Frei Genebro" é o título de um conto de Eça de Queirós, incluído no livro Contos, e o nome da personagem principal.
Este frade era um amigo e discípulo de S. Francisco de Assis e a sua vida resumia-se a orações e penitências, com o objectivo de conseguir a purificação da alma, logo, a santidade.

Um dia, Frei Genebro foi visitar o irmão Egídio que se encontrava gravemente doente mas tinha fome e desejava comer porco assado. Frei Genebro quis satisfazer o último desejo do amigo e, para isso, cortou uma perna a um bacorinho deixando-o a agonizar numa poça de sangue.

Frei Egídio morreu pouco depois e frei Genebro partiu para pregar o Evangelho e fazer o bem.

Um dia avistou uma mão luminosa, a mão de Deus. Desfez-se do pouco que tinha e morreu num curral. Um anjo apoderou-se da sua alma, levando-a para uma região entre o purgatório e o paraíso. No entanto, o prato das más acções começou a descer, por causa do porco que frei Genebro mutilara para atender ao último desejo de um amigo. E foi este inocente acto que o fez cair no purgatório.
No início do julgamento, o desnível entre os dois pratos da balança da justiça divina é muito sigificativo. No entanto, o enorme peso das boas acções rapidamente se tornou leve face a um gesto aparentemente sem significado: o porco que ficou mutilado pesa muito mais do que toda a vida de humildade, penitência e dádiva.


(clicar na imagem para ampliar)


MORAL DA HISTÓRIA:
Não é a santidade que leva as pessoas ao paraíso e os gestos mais insignificantes podem ser os mais graves.




NOTA 1:
O conto e alguns dados biográficos do autor podem ser lidos aqui.

NOTA 2:
Este e outros contos de Eça de Queirós foram adaptados para os mais novos, através de uma linguagem mais simples e actualizada, por Luísa Ducla Soares, em Seis contos de Eça de Queirós, Terramar.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

CONTO DA SEMANA


A Batalha de Natal

— Só mais seis dias — disse Neli.
Enquanto a filha tentava assobiar Noite Feliz, a mãe repetiu, pensativa, numa voz que não soava alegre:
— Ainda seis dias.
Após uma curta pausa, prosseguiu, suspirando:
— Se tudo já tivesse passado!
Com o assobio suspenso no ar, Neli olhou para a mãe com ar estupefacto:
— Não estás contente?
— Claro que sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda!
Como Neli não tinha aulas à tarde, foi patinar com uma amiga. Ao cair da noite, dirigiu-se ao supermercado onde a mãe trabalhava. Havia tanto movimento que o lugar mais parecia uma colmeia. A mãe estava sentada numa cadeira giratória, diante de uma das seis caixas registadoras. Os produtos chegavam-lhe num tapete rolante. Enquanto a mão direita marcava os números no teclado, a mão esquerda rodava as embalagens para que a máquina pudesse ler os códigos. Finda a operação, os produtos eram colocados, um a um, no carrinho de compras. Quando acabava de marcar tudo, a mão direita carregava na tecla do total e rasgava o talão, enquanto a esquerda afastava o carro cheio e puxava o próximo, vazio, para junto dela.
— Que bem fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu faria tudo devagar e, ainda por cima, metade saía mal.
— Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço e, muitas vezes, carregava nas teclas erradas. Como tinham de esperar, as pessoas resmungavam. Agora já quase consigo fazer isto automaticamente.
— Como um robô! — Neli riu-se.
E se tivesse um robô como mãe? Nunca teria dores de cabeça, nem à noite estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração e, por isso, Neli preferia a mãe tal como era, mesmo quando, em certas noites, quase nem conseguia falar de tão cansada!
Só mais quatro dias.
Só mais três.
As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas abasteciam-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um ruído sibilante, as portas automáticas abriam e fechavam, abriam e fechavam. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.
Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe, tinha escrito a vermelho: PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.
Perto dele balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80€/kg.
Os altifalantes debitavam música de Natal:
Noite feliz…
Cabeça de anho
Noite feliz…
Descafeinado
Papel higiénico de três folhas
O Senhor…
Lenços com monograma
Mostarda
Nasceu em Belém…
A mãe suspirava e, com um movimento rápido, limpava o suor do lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem olhavam para a senhora da caixa, pensando apenas no regresso a casa com os sacos pesados e o eléctrico cheio.
Ufa!
Só mais três dias, e acabaria tudo.
— Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse a mãe, à noite, virando-se para Neli. — Patê em folhas de alface, porco assado, batatas fritas, feijão e, para sobremesa, creme de chocolate de lata com peras.
No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um desconto de 15%, os produtos que tinham sobrado. A mãe de Neli achava que valia a pena e, por isso, tinha guardado as compras maiores para essa altura: uma pasta escolar para Neli, uma boneca, lápis de cor, um anoraque para o pai, e a comida para a ceia de Natal.
Na sala do pessoal, houve um lanche para todos os empregados.
— A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — alegrou-se o chefe do pessoal, que proferiu mais umas palavras elogiosas.
Depois foram servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho a cada um.
Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas boas para a ceia!”, pensou assustada.
Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não voltava a abrir. Chegou a casa de mãos vazias.
Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem sobremesa. Trincaram nozes e comeram maçãs.
— Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me caem bem.
Também não havia muito que desembrulhar.
Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.
Neli foi buscar o jogo “Memory” que recebera no Natal anterior. Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que alguém tivesse tempo para jogar com ela.
Agora, os pais tinham tempo.
O pai nunca tinha jogado “Memory”. Ao fim de algum tempo, Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que geralmente queria ganhar sempre, procurava constantemente no sítio errado.
Tentava alguns truques, pondo, sem ninguém dar conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou pousava as mãos na mesa, de forma a que o polegar indicasse a direcção em que estava uma determinada carta. Mas Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangou por perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.
À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.
— A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou que, afinal, a mãe estava contente por ser Natal.
Ao ir para a cama, Neli disse:
— Este foi um Natal muito bonito.
— A sério? — perguntou a mãe, admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas.
— Mas houve muito tempo — respondeu Neli.


Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
(Tradução e adaptação)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

HISTÓRIA DA SEMANA

É mais uma reflexão sobre o que é e o que não deveria ser o NATAL. O texto foi escrito pela Sara Oliveira Santos, em Dezembro de 2008, quando era aluna do 8ºD.


A MAGIA DO NATAL!



O Natal é mágico!
Mágico pela magia dos sonhos das crianças e de todas as pessoas com a capacidade de sonhar… Mágico pelos sorrisos diante das prendas… Mágico pela magia do amor, do carinho, da paz, da alegria e da harmonia que enche os corações de cada um de nós, neste dia…
Natal! Uma palavra tão pequena mas de um significado tão grande…Natal é tempo de amar, de reconciliar, de ajudar e acarinhar, de sermos solidários e ajudar quem mais precisa. Porque o Natal não é só um homem de fato vermelho e barbas brancas com um grande saco às costas a entrar pela chaminé; nem só uma mesa cheia de comida e bolos, uma cidade iluminada, uma árvore enfeitada; não é só festa, luzes e alegria. Natal é um sorriso, é um pão para uma criança pobre, é um cobertor para um sem-abrigo, é uma estrela no céu nublado, é uma folha numa árvore em pleno Inverno. Natal é poder sonhar por um Mundo melhor, sem guerras nem maldades, sem ódio nem egoísmo, sem pobreza nem desigualdade, sem invejas nem preconceitos… Natal é podermos ser todos iguais. É poder dizer “Eu sou Feliz!”, porque o Natal é tempo de sermos felizes!
É assim que devia ser… Mas não é assim que é… Hoje em dia o Natal é apenas um negócio, é dar e receber prendas em vez de amor e carinho, é apenas mais uma forma de gastar dinheiro… O Natal não passa de um luxo. É triste mas, pelo menos na maioria dos casos, é assim… Não paramos para pensar que existem milhões de pessoas a passar fome e nós, de mesa cheia e muitas vezes mal contentes, não paramos para pensar que existem milhões de crianças que não recebem sequer um simples beijo… Somos egoístas. Estamos sempre a reclamar com aquilo que temos e muitas crianças davam tudo para terem um pouquinho daquilo que temos… E é nestas pessoas que devemos pensar que as devemos ajudar a concretizar um sonho: o de serem FELIZES… O Natal é isso: é estarmos em família e ajudarmos quem mais precisa…
Embora, na realidade, não seja assim, é bom poder sonhar que é, e que pelo menos neste dia todos somos felizes!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

CONTO DA SEMANA


A rua tinha luzes de muitas cores que, encavalitadas nos postes, faziam desenhos de Natal. E dançavam ao som duma música cheia de sonoridades leves como algodão. De vez em quando passava um automóvel apressado. Apesar disto, ali da montra onde se encontravam, tudo era frio e distante. Eram duas bonecas que ninguém quis comprar.
— Este é o nosso primeiro Natal…
— E, decerto, o último. Se ninguém nos comprou, vamos ser retiradas da montra e arrumadas, ou entregues à caridade, ou destruídas.
— Assim será, com certeza. A nossa vida depende das leis do mercado.
E foram conversando para passar o tempo, ora filosofando sobre a sua efémera existência, a sua matéria breve, ora imaginando como seria o Natal das pessoas, que só conheciam de ver passar na rua, ou da loja, quando entravam para comprar bonecas.
— Esta é belíssima, elegante, tem um belo vestido e uma cintura fina.
— Esta tem uma expressão de felicidade, um olhar doce.
— Aquela, de cabelos louros, tem no rosto o sol abrasador do Verão.
Mesmo para uma boneca, era triste ficar ali na noite de Natal a olhar a solidão da rua. Sobretudo quando imaginavam a alegria das outras bonecas que tinham sido vendidas: a emoção de sair de dentro dos embrulhos, de sentir todas as atenções, de receber um nome, de entrar na família fantástica das crianças.
Todas as pessoas deviam ter uma casa, porque ninguém passava na rua. Todos os meninos deviam ter brinquedos na noite de Natal, porque os brinquedos mais bonitos tinham sido vendidos. Em todo o mundo devia haver alegria e surpresa e magia naquela noite, porque era dessa forma que a imaginavam.
Dentro das casas, o ar estaria povoado de seres fantásticos, que se moviam como se não tivessem peso. Esvoaçavam como se fossem pequenos pássaros transparentes. E isto criava uma grande excitação entre as crianças. Elas próprias se sentiam tão leves que os seus movimentos eram como os movimentos dos astronautas: dançavam, elevavam-se, sorriam, tocavam-se, cantavam melodias afinadíssimas e finas como um fio de cristal. As bonecas entravam também nesta dança fantástica como se fossem pessoas de verdade. A árvore de Natal transformara-se numa enorme tília de grandes ramos. Havia baloiços pendurados nos ramos. Havia pequeninas casas suspensas nos ramos. As estrelas desciam e poisavam nos ramos. E todos aqueles seres – crianças, anjos, pássaros, estrelas e bonecas – percorriam os ramos, como se fossem caminhos, entravam nas casinhas, dançavam nos baloiços, agarravam-se à cauda das estrelas. Entre os ramos mais distantes construíam passadiços e imaginavam rios por onde às vezes desciam: bebericavam, tomavam um banho, atiravam salpicos de água uns aos outros.
Estavam assim imaginando, quando se aproximou da montra uma figura muitíssimo estranha: tinha umas roupas sujas e gastas, os cabelos sujos e desalinhados, a barba suja e por fazer e nos seus olhos havia fome, desolação e desprezo. Falava sozinho palavras imperceptíveis.
— Esta figura não deve ser de cá…
— Talvez tenha descido de outro planeta, um planeta onde não há Natal, nem casas, nem anjos, nem estrelas, nem amigos…
A rua continuava deserta e o homem continuava ali fitando a montra e falando desordenadamente. De nenhum lado surgia uma sombra, uma voz, um movimento, um pássaro branco, um anjo de tule, um caule de luz. Até a música de algodão pendurada nos postes se tinha já calado.
— Como deve ser triste a vida na terra, na cidade ou no planeta donde veio…
Nada no seu rosto fazia lembrar a alegria: nenhuma expressão, nenhum traço, nenhuma palavra.
De vez em quando estendia o braço, apontando não se sabia o quê, apontando por apontar; e o vento gelado da noite alinhava os seus cabelos na direcção do braço. E nada lá ao longe fazia lembrar a liberdade. Outras vezes ficava estático e imóvel, fitando o infinito. Parecia uma estátua feita do mais cruel abandono; parecia um tronco velho de uma árvore; parecia a coluna de um palácio abandonado. E nada na sua pose fazia lembrar a paz. Outras vezes ajoelhava-se fitando o chão, como se o chão fosse um enigma por decifrar, como se na pedra do chão estivesse gravado um vestígio de Deus; como se Deus se tivesse esquecido, por acaso, de uma marca, um indício, um grão de poeira, um cabelo que fosse.
— Há tempos ouvi falar aqui na loja de um país ou planeta onde as pessoas são desprezadas, onde lhes negam o pão e as obrigam a matar-se umas às outras. Os que as governam são maus e obrigam-nas a viver na rua como animais vadios.
O homem não tirava os olhos da montra como se estivesse a falar com as bonecas, mas utilizando uma linguagem que elas não entendiam. Poisou no chão umas sacas que trazia consigo e começou a esbracejar. Mas nenhum dos seus gestos fazia lembrar a justiça. Ora estava de pé, ora de cócoras, ora se sentava no passeio. Mas sempre desenhando a mesma veemência, a mesma impaciência.
— Talvez queira dizer-nos alguma coisa. Talvez pense que somos pessoas. Talvez procure em nós uma resposta para as suas perguntas.
— Talvez tenha pena de nós e ficasse ali a distrair a nossa solidão.
Passado muito tempo, adormeceu encostado à montra. Um cão que passava remexeu-lhe nas sacas e fugiu abocando alguma coisa que não puderam ver o que era. Depois veio outro cão e deitou-se ao calor dos seus pés. Assim ficaram ali pela noite dentro. Era quase de madrugada quando apareceu, não se sabe de onde, uma mulher igualmente desgrenhada, cambaleante e com os olhos cheios de amargura e abandono. Trazia nos braços algo que poderia ser uma criança. Deitou-se também, puxou um dos sacos para a cabeça a fazer de travesseiro e adormeceu.
— São estranhas estas figuras… Como é que no país ou no planeta lá onde moram não há Natal?
— Como devem ser infelizes as pessoas… Um planeta sem Natal devia ser extinto, devia explodir nos ares, ficar desfeito em poeira fina e disperso pela imensidão dos céus.
— Provavelmente foram expulsas e tiveram de caminhar dias e noites até encontrar este recanto.
— Tiveram sorte de não serem assaltadas pelo caminho, nem de morrerem de frio, de sede ou de fome.
— Talvez tenham uma resistência e uma energia maior do que a das pessoas que conhecemos.
— Talvez o seu corpo não sinta frio nem calor. Talvez não precisem de alimento, de carinho, de amizade.
— Pelo menos numa coisa são diferentes de nós, bonecas: precisam de dormir…
— Devem ser alimentados e encorajados durante o sono por um anjo ou outro ser invisível.
Por um tempo deixaram-se destas conjecturas e voltaram a pensar como seria o Natal dentro das casas. Agora todos estariam já a dormir, sonhando com os anjos, os pássaros transparentes, as estrelas; sonhando com um tal Jesus, que não sabiam muito bem quem era, mas devia ser tão maravilhoso que até lhe chamavam Salvador.
Estavam assim imaginando, quando surgiu um carro da polícia. Parou em frente à montra. De dentro saiu um homem com uma farda e deu um pontapé no cão, que ganiu e fugiu a coxear. Depois fez o mesmo ao homem e à mulher e obrigou-os a entrar no carro, o que fizeram ensonados e sem oferecer resistência.
— Sempre não devem ser de cá…
— Talvez as autoridades os tenham levado para analisar e estudar como é a vida no país ou planeta de onde vieram.
— Ah! Já sei porque vieram buscá-los. Não te lembras de ouvir falar do Presépio? Era um homem, uma mulher, uma criança e um animal. Decerto andavam à procura de um presépio raro, e encontraram este e levaram-no para um museu.
— O que é um museu?
— É uma casa muito grande cheia de coisas antigas, raras e valiosas onde também há pessoas com olhos, boca, ouvidos e mãos; mas não vêem, não falam, não ouvem, não cumprimentam ninguém. Chamam-se estátuas.
— E dentro dos museus também há Natal?…




Nuno Higino
A mais alta estrela – Sete histórias de Natal
CENATECA, Associação Teatro e Cultura, Marco de Canaveses, 2000

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